Roma — O presidente da UEFA, Aleksander Ceferin, afirmou nesta quarta-feira, durante a assembleia geral da European Football Clubs (EFC), que a decisão de levar partidas de ligas nacionais da Europa para outros continentes “corre o risco de quebrar o futebol”. A declaração vem após o órgão aceitar, “com relutância”, que Villarreal x Barcelona seja disputado em Miami, em dezembro, e que AC Milan x Como ocorra em Perth, na Austrália, em fevereiro.
Por que a UEFA teme pelos “alicerces” do futebol
Segundo Ceferin, o esporte “vive nas comunidades, nos torcedores e nas ruas”. Ao transferir partidas oficiais para outros países, a entidade vê a possibilidade de:
- Desconexão com a base local: sócios e torcedores de temporada perdem acesso ao produto pelo qual pagaram.
- Precedente regulatório: o calendário interno pode se fragmentar, abrindo espaço para disputas judiciais entre ligas e federações.
- Sobrecarga de atletas: viagens intercontinentais adicionam milhares de quilômetros ao desgaste físico.
O que diz o regulamento e por que a FIFA não barrou
A FIFA montou um grupo de trabalho em 2023 para estudar impactos de jogos domésticos fora de casa, mas ainda carece de um protocolo definitivo. Sem base jurídica sólida para proibir, a UEFA liberou as partidas, porém registrou oficialmente sua oposição. A própria consulta feita pela entidade europeia apontou “falta de apoio generalizada” entre torcedores, jogadores, ligas e instituições políticas.
Precedentes e tentativas anteriores
Não é a primeira vez que a La Liga tenta atravessar o Atlântico. Em 2018, Girona e Barcelona planejavam atuar em Miami, mas a FIFA vetou à época. A ideia persistiu, agora amparada por brechas no regulamento. Na Itália, será a estreia absoluta de uma partida de Série A fora da Europa, embora a liga já costume exportar a Supercopa para Oriente Médio e China.
Raio-X logístico: distância e impacto físico
| Partida | Trajeto | Distância (aprox.) | Média de um jogo fora de casa |
|---|---|---|---|
| Villarreal x Barcelona | Valência → Miami | ≈ 7.500 km | ≈ 300 km (La Liga) |
| AC Milan x Como | Milão → Perth | ≈ 13.500 km | ≈ 350 km (Série A) |
De acordo com estudos da FIFPRO, viagens acima de 5.000 km podem elevar em até 30 % o tempo de recuperação física dos atletas, fator crucial em temporadas com ritmo de jogo a cada três dias.
Superliga volta ao radar — mas sem aval da UEFA
No mesmo pronunciamento, Ceferin reiterou que a entidade “jamais criará ou apoiará uma competição exclusiva para poucos”, em alusão ao projeto de Superliga Europeia ressuscitado após decisão judicial favorável aos clubes dissidentes. Para o esloveno, “o valor duradouro vem da união, não da segregação”.
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O que esperar a partir de agora
A execução dos dois jogos-piloto servirá de termômetro para ligas interessadas em internacionalizar partidas. A aceitação de público, o desempenho físico dos elencos e a repercussão política formarão a base de um relatório da FIFA, previsto para 2025. Caso o modelo se prove viável financeiramente, outras ligas — sobretudo Premier League e Bundesliga — podem pressionar por calendários globais, enquanto a UEFA tentará fortalecer mecanismos de proteção aos torcedores locais.
Conclusão prospectiva: O embate entre a expansão comercial dos clubes e a preservação das raízes comunitárias do futebol europeu promete novas rodadas de negociação. Se Miami e Perth confirmarem receitas recordes de bilheteria e audiência, o debate tende a esquentar, obrigando FIFA e UEFA a estabelecer parâmetros claros antes da temporada 2025/26.
Com informações de BBC Sport