Glasgow (Escócia) – Na noite de segunda-feira, o Celtic confirmou a renúncia de Brendan Rodgers ao cargo de técnico e, poucas horas depois, o acionista majoritário Dermot Desmond divulgou nota oficial atacando duramente o ex-treinador. O choque de versões sobre contrato, contratações e clima interno pôs em evidência uma crise que pode redefinir o futuro esportivo e financeiro do clube.
O que motivou a ruptura?
Até domingo, após a derrota por 3 × 1 para o Hearts, Rodgers declarava estar “mais motivado do que nunca”. Vinte e quatro horas depois, pediu demissão. Segundo Desmond, o técnico já sabia, desde junho, que teria proposta de renovação – algo que Rodgers negava publicamente. O ponto de fricção escalou quando o treinador se referiu a Shin Yamada e Hayato Inamura como “contratações do clube”, sugerindo que não tinha a palavra final nas chegadas. Desmond rebateu dizendo que “todo jogador foi contratado com aval de Rodgers”.
Cronologia da crise
Junho/2023 – Rodgers volta a Celtic Park após passagem de sucesso entre 2016 e 2019.
Junho/2024 – Clube sinaliza extensão contratual, segundo Desmond.
Agosto-Setembro/2024 – Rodgers afirma à imprensa não ter recebido proposta formal.
Verão europeu/2024 – Chegam Yamada e Inamura; treinador fala em “assinaturas do clube”.
Domingo (derrota para o Hearts) – Celtic cai para 5.º na liga; torcida protesta.
Segunda-feira – Renúncia de Rodgers e resposta pública de Desmond.
Raio-X da Era Rodgers 2.0
Títulos: 1 Premiership (2023/24).
Aproveitamento doméstico: 71% dos pontos disputados.
Desempenho europeu (2023/24): Eliminado na 2.ª fase preliminar da Champions pelo Kairat Almaty.
Gols sofridos na liga atual: 18 em 13 partidas – pior marca do clube desde 2010.
Reforços sob questionamento: Shin Yamada (atacante) e Hayato Inamura (zagueiro) ainda não somam 180 minutos em campo.
Impacto tático imediato
A saída repentina deixa o Celtic sem comandante às vésperas da maratona de fim de ano. O setor defensivo, que já havia perdido clean sheets em 9 dos últimos 13 jogos, chega ainda mais exposto. A diretoria busca um treinador capaz de:
- Reconstruir a transição defensiva – o time cedeu 11 contra-ataques que terminaram em finalização nas últimas cinco rodadas.
- Integrar rapidamente jovens como Yamada, mantendo a pressão alta característica do clube.
- Reestabelecer a confiança da torcida, cuja ocupação média em Celtic Park caiu de 59,7 mil para 55,1 mil nesta temporada.
Consequências estratégicas e financeiras
Desmond atribuiu o ambiente “tóxico” ao ex-técnico, mas grupos de torcedores apontam falhas na política de contratações. A ruptura aprofunda três desafios:
Imagem: Internet
- Mercado de Transferências: sem um técnico, o planejamento de janeiro fica em suspenso.
- Receita Europeia: fora da Champions, o clube já deixou de arrecadar cerca de €25 mi em 2024 – verba vital para manter a folha salarial.
- Imagem Institucional: o conflito público entre acionista e treinador gera desconfiança em futuros alvos de mercado.
O que vem a seguir?
Com o time a quatro pontos do líder Rangers, o Celtic precisa anunciar um sucessor antes da rodada do próximo fim de semana. Nomes como Steve Clarke (seleção escocesa) e Enzo Maresca (Leicester) surgem na mídia local, mas a diretoria não confirma conversas. Internamente, Michael Nicholson, CEO, promete “solução rápida” para preservar a meta mínima da temporada: reconquistar a Premiership e garantir vaga direta na fase de grupos da Champions 2025/26.
Em síntese, a demissão de Rodgers expõe fissuras entre campo e diretoria e coloca o Celtic diante de uma encruzilhada: retomar a política de contratações que o levou a dominar o futebol escocês na última década ou reformular seu modelo esportivo antes que o Rangers consolide a hegemonia doméstica. A resposta começará a ser dada nas próximas semanas, com a escolha do novo treinador e a janela de janeiro.
Com informações de BBC Sport