Porto Alegre (RS) — O Grêmio submete no dia 17 de março ao seu Conselho Deliberativo a proposta de deixar o bloco Libra e aderir ao Futebol Forte União (FFU), movimento que pode redesenhar a disputa pelos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro.
O que está na mesa do Conselho Tricolor?
A diretoria gremista pretende aprovar um acordo que prevê a venda de 10% dos direitos de TV dos jogos do clube pelos próximos 50 anos, tendo a Sportsmedia como sócia comercial e financiadora. A manobra replica o caminho percorrido nos últimos meses por Vitória e Atlético-MG, também ex-membros da Libra.
Por que a FFU seduz financeiramente?
O ponto central é o acesso imediato a capital. Enquanto a Libra trabalha em um modelo de distribuição baseado em receita futura — sem possibilidade de antecipação direta no curto prazo — a FFU, via Sportsmedia, oferece adiantamento de receitas em troca de participação acionária nos direitos de mídia. Para um Grêmio que, em 2025, fechou o balanço com R$ 163 milhões em déficit operacional* e liberou 21 atletas para reduzir a folha, a liquidez instantânea tornou-se prioridade.
*Valor estimado a partir de dados públicos do balanço financeiro de 2025.
Situação contratual e o fator CADE
Mesmo com a possível aprovação interna, a migração depende de um aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), já que o Grêmio mantém contrato com a Libra válido até 2029. A tendência, segundo fontes ouvidas pela ESPN, é de que o FFU confie em um parecer positivo, apostando no entendimento de que não há cláusula de exclusividade irreversível.
Imbróglio com o Flamengo reforça a tensão
Desde o fim de 2025, o Flamengo, sob a presidência de Luiz Eduardo Baptista (Bap), move ação no TJ-RJ para bloquear R$ 77 milhões do rateio da Libra. O clube carioca alega desequilíbrio na fatia de audiência — receberia 10,41% da verba, embora calcule deter 47% da torcida entre os membros do bloco. A disputa judicial congelou repasses fundamentais para clubes com menor fluxo de caixa, aumentando a insatisfação interna e acelerando conversas com a Sportsmedia.
Raio-X financeiro e de audiência
Distribuição proposta pela Libra (modelo 40-30-30) — estimativa 2026:
- 40% dividido em partes iguais entre os clubes
- 30% por performance esportiva
- 30% por audiência e engajamento
Proposta FFU via Sportsmedia:
Imagem: Internet
- Venda de até 20% dos direitos de TV por até 50 anos (cada clube define o percentual)
- Pagamento antecipado proporcional à participação vendida
- Criado um pool de negociação coletiva, mas sem modelo de divisão fechado publicamente
Impacto potencial no caixa do Grêmio (projeção simplificada):
- Receita média anual com TV 2023-25: R$ 160 milhões*
- Venda de 10%: adiantamento estimado em R$ 240-260 milhões (considerando correção pela média histórica do Brasileiro)
- Prazo de 50 anos: clube abre mão de R$ 16 milhões/ano em receita futura (valor nominal sem correção)
*Dados do balanço oficial e cota de TV da Série A.
O que muda para o Brasileirão a curto prazo?
• Para o Grêmio: entrada de caixa imediato alivia dívidas de curto prazo, mas reduz a margem de negociação futura de direitos internacionais e digitais.
• Para a Libra: eventual saída gremista pode estimular efeito dominó, diminuindo poder de barganha na venda coletiva pós-2029.
• Para a CBF e as emissoras: cenário fragmentado dificulta a consolidação de um pacote único de mídia, elevando custos de cobertura e potencialmente diluindo audiência.
Próximos passos e possíveis cenários
O cronograma indica que, até abril, o Grêmio terá parecer interno e aguarda manifestação do CADE. Em paralelo, a Libra busca novo parceiro financeiro após a retirada da proposta do banco Daycoval, tentando oferecer uma opção de adiantamento de 5% dos direitos por 15 anos — condição semelhante à da FFU, porém menos agressiva em prazo.
Conclusão prospectiva: Se ratificada, a migração tricolor inaugura uma fase de fragmentação mais profunda na venda dos direitos do Brasileirão. A capacidade da Libra de conter novas deserções dependerá de viabilizar, rapidamente, fontes de crédito que mitiguem o “fator liquidez” oferecido pela Sportsmedia. Para o Grêmio, a vitória imediata é o fôlego financeiro; o desafio de longo prazo será administrar a perda recorrente de receita de TV até 2076.
Com informações de ESPN Brasil