Manchester, 1992 — Magi Haroun tornou-se a primeira mulher a receber credenciamento oficial da recém-criada Premier League, registrando de perto lances históricos do Manchester United e transformando a presença feminina na fotografia esportiva.
Primeira lente feminina na elite inglesa
Quando a bola rolou na temporada inaugural da Premier League (1992/93), Magi Haroun já estava à beira do gramado — armada com duas câmeras, colete de imprensa e muita persistência. O reconhecimento oficial que ela recebeu naquele momento quebrou um padrão de décadas: nenhum outro nome feminino constava na lista de fotógrafos credenciados.
Em meio a chuva torrencial no duelo Torpedo Moscou x Manchester United, pela Copa da Uefa, Haroun foi convidada por Sir Alex Ferguson a sentar-se no banco de reservas para proteger o equipamento, cena que sintetiza sua relação de confiança com o elenco vermelho.
Contexto histórico: Premier League e barreiras de acesso
O lançamento da Premier League, em 15 de agosto de 1992, foi acompanhado por uma profissionalização acelerada da cobertura midiática. Câmeras adicionais, flash remoto e posições delimitadas à beira do campo intensificaram a disputa por espaço entre fotógrafos — quase todos homens.
Haroun, graduada pelo Manchester Art College e filha do ex-diretor United Denzil Haroun, usou o sobrenome influente para abrir portas, mas precisou provar competência técnica a cada clique para permanecer. De travessias em estádios hostis a prisões injustificadas em jogos de rivalidade acirrada, o desafio ia além do enquadramento perfeito.
Desafios dentro e fora de campo
• Choque físico: atingida por pedras na Turquia (Trabzonspor x Aston Villa) e por chutes de Denis Irwin e Wayne Rooney em treinos do United.
• Assédio institucional: detida pela polícia em Leeds x Manchester United, episódio que exemplifica a fragilidade da posição feminina à época.
• Ambiente masculino dominante: Stewards identificavam a fotógrafa como “elo fraco”, exigindo credenciais adicionais que colegas homens não precisavam mostrar.
Raio-X da carreira de Magi Haroun
- Início: Primeiros cliques aos 14 anos, dentro de Old Trafford.
- Ano da credencial Premier League: 1992.
- Veículo principal: jornal Today (Reino Unido).
- Arquivos marcantes: Sir Alex Ferguson com troféu da Premier League; Ruud van Nistelrooy & Cristiano Ronaldo comemorando; Kyle Walker x Dimitar Berbatov; registro do choro de Gary Pallister após eliminação em Moscou.
- Reconhecimento atual: Referência em acervos do clube e presença constante em exposições de fotografia esportiva.
Legado e impacto na igualdade de gênero
Organizações como Women in Football e Women Photograph apontam que a participação feminina ainda é minoritária na cobertura de jogos da Premier League. Entretanto, histórias pioneiras como a de Haroun pavimentaram iniciativas de inclusão: dos workshops de fotografia organizados por clubes aos programas de estágio voltados exclusivamente para mulheres.
Imagem: Internet
Além da representatividade, o trabalho da inglesa destacou a importância tática de um olhar próximo ao campo. Suas imagens viraram material de estudo interno: movimentações defensivas, posicionamento corporal em cobranças de pênalti e até detalhes de gramado passaram a ser analisados pelos departamentos de performance.
Próximos passos: mais espaço para novas lentes
A Premier League estabeleceu, para os ciclos de mídia 2025-28, metas de diversidade nas equipes credenciadas. A expectativa é que o número de mulheres fotógrafas e cinegrafistas aumente temporada a temporada. Clubes como Arsenal e Chelsea já reservam cotas de posições de linha lateral para novas profissionais. O legado de Magi Haroun, portanto, deve ganhar ainda mais relevância como referência histórica e inspiração para futuras gerações.
No curto prazo, a liga planeja ampliar workshops de capacitação em parceria com universidades britânicas. Caso esse movimento se consolide, a próxima década poderá apresentar ao torcedor um repertório visual com múltiplas perspectivas — algo que começou, há exatos 32 anos, com a ousadia de uma fotógrafa que não temia nem a chuva de Moscou.
Com informações de BBC Sport