Liverpool, 13 de abril de 2024 – Depois de investir cerca de 416,2 milhões de libras na última janela, o Liverpool chega ao clássico contra o Manchester United, em Anfield, sob a sombra de três derrotas consecutivas. O cenário ampliou o debate sobre o impacto da saída de Trent Alexander-Arnold, vendido ao Real Madrid no meio do ano, na mecânica ofensiva da equipe de Arne Slot.
Por que a saída de Trent altera o plano de jogo
Alexander-Arnold deixou o clube aos 27 anos com 18 gols e 64 assistências, mas seu peso vai além dos números de criação direta: o lateral era peça central para burlar pressões altas e iniciar ataques com passes longos ou inversões de jogo.
No modelo de posse de Slot, o Liverpool alterna construção curta e bolas longas para acelerar a transição. Sem Trent, o time perdeu um executante capaz de:
- Usar os dois pés para escapar de marcadores e conectar o meio-campo (principalmente com o pé esquerdo em passes diagonais);
- Gerar inversões rápidas que “esticam” a defesa adversária, abrindo espaço para Salah ou o ponta oposto;
- Oferecer volume de passes longos sem comprometer a precisão.
Na derrota para o Chelsea, Conor Bradley repetiu o mesmo enquadramento corporal, mas não arriscou o passe interno e preferiu recuar para Konaté. A jogada reiniciou, permitindo à marcação dos Blues se reorganizar – algo que raramente acontecia com Trent.
Raio-X: os números que explicam a queda
Comparação Premier League 2023/24 (até a 31ª rodada) x 2022/23:
- Inversões de jogo: 3,4 por 90 min (2022/23) → 1,3 por 90 min (2023/24) – queda de 61,7%;
- Passes longos de Alexander-Arnold: 11,3/90 min, 42,1% de acerto;
- Passes longos dos atuais laterais: Bradley 3,7/90 min (16,1%), Frimpong 1,1/90 min (0%);
- Gols de contra-ataque: 9 (2022/23) → 4 (2023/24);
- Gols sofridos após perda na 1ª fase de construção: 5 (2022/23) → 9 (2023/24).
Efeitos sobre Salah, Isak e Wirtz
As deficiências na primeira fase de construção afetam diretamente a produtividade do trio ofensivo:
Imagem: Internet
- Mohamed Salah – Recebe mais bolas de costas, obrigado a devolver para o meio. Teve queda de 0,42 para 0,29 Expected Goals (xG) por 90 min;
- Alexander Isak – Depende de rupturas em velocidade; com menos campo para atacar, sobe de 10 para 15 ações de disputa aérea por jogo, indicador de jogo mais direto e previsível;
- Florian Wirtz – Recuou, em média, cinco metros no mapa de recepções em comparação ao Bayer Leverkusen 2022/23, sacrificando presença na zona de criação final.
O que esperar contra o Manchester United
Rúben Amorim já armou o United em 5-4-1 para proteger o corredor central. Caso repita o desenho, os zagueiros do Liverpool devem concentrar a posse, cenário que expõe a limitação de passes quebrando linhas. Sem o “atalho” de Alexander-Arnold, há risco de Wirtz afundar ainda mais para buscar a bola, reduzindo punch na frente.
Além disso, uma eventual marcação agressiva do ala esquerdo sobre Salah reduz ainda mais a possibilidade de 1×1 em velocidade. A solução pode passar por:
- Aproximação de Szoboszlai entrelinhas para receber do zagueiro e virar o jogo rapidamente;
- Maior participação de Van Dijk nos lançamentos diagonais, movimento já usado para achar Salah isolado;
- Entrada de um lateral mais confortável com o pé inverso (Joe Gomez) para variar o primeiro passe.
Conclusão prospectiva
A queda de rendimento não decorre apenas de entrosamento das contratações, mas de uma lacuna estrutural na construção, antes preenchida por Alexander-Arnold. O clássico diante do United será termômetro para medir se as alternativas de Slot conseguem devolver fluidez e profundidade ao ataque. Caso contrário, a busca por um lateral com perfil semelhante ou a adaptação de um meio-campista à função tende a ser prioridade na próxima janela.
Com informações de BBC Sport