Rio de Janeiro, 8 de janeiro de 2026 – Luiz Eduardo Baptista, o Bap, afirmou que o Flamengo “será o único grande do país que não virará SAF até 2029”. A declaração reforça um paradoxo: mesmo permanecendo uma associação sem fins lucrativos, o clube já opera na prática segundo a cartilha empresarial típica das Sociedades Anônimas do Futebol, adotando cortes de custos em modalidades não prioritárias e intensificando o investimento no futebol masculino profissional.
O que é SAF e por que o Flamengo nada contra a maré
A SAF (Sociedade Anônima do Futebol) é um modelo societário criado em 2021 para profissionalizar clubes brasileiros por meio de capital externo e governança corporativa. Desde então, Botafogo, Cruzeiro, Vasco e Bahia, entre outros, venderam participações majoritárias a investidores internacionais. O Flamengo, porém, segue como associação civil, mantendo o controle nas mãos dos sócios, ainda que adote práticas semelhantes às exigidas por lei para uma SAF, como prestação de contas rígida e metas de rentabilidade.
Cortes estratégicos: futebol feminino e esportes olímpicos no alvo
Para redirecionar recursos ao elenco masculino, a gestão rubro-negra reduziu o orçamento do futebol feminino e descontinuou modalidades como a canoagem. A medida é impopular entre torcedores que valorizam a pluralidade esportiva, mas está alinhada à lógica de priorizar linhas de receita com maior retorno imediato – bilheteria, direitos de TV e vendas de jogadores.
Raio-X financeiro do Flamengo
Receita bruta 2025: R$ 2,05 bilhões (projeção baseada no balanço preliminar do exercício)
Folha salarial do futebol masculino: R$ 58 milhões/mês
Investimento em outras modalidades (2025): 1,8% da receita total, ante 3,2% em 2023
Estatuto: dirigentes respondem com patrimônio pessoal em caso de gestão temerária – dispositivo semelhante ao compliance exigido em SAFs
Comparativo com outras SAFs brasileiras
Enquanto Botafogo, Cruzeiro e Vasco utilizam aportes de investidores para quitar dívidas históricas, o Flamengo parte de uma base financeira já equilibrada desde 2013. A diferença é que o rubro-negro financia seu projeto esportivo com cash flow operacional, sem repassar controle acionário. Na prática, o clube colhe benefícios típicos de uma SAF (governança corporativa e orçamento positivo) sem abrir mão da identidade associativa.
Imagem: Internet
Impacto futuro: qual o efeito na montagem do elenco e no cenário nacional
Com folga de caixa após os cortes em modalidades menos rentáveis, a diretoria planeja investir até R$ 400 milhões em contratações na janela de julho de 2026 – movimento que pode desequilibrar a disputa nacional, visto que sete dos 12 “grandes” ainda dependem de reestruturações ou aportes externos. Caso mantenha a produtividade financeira e esportiva, o Flamengo tende a pressionar rivais a acelerarem processos de transformação em SAF ou a revisarem seus modelos de gestão.
Conclusão: Ao manter o controle associativo, mas aplicar regras de mercado, o Flamengo cria um híbrido único no futebol brasileiro. A estratégia promete fortalecer o elenco masculino a curto prazo, mas será testada pela sustentabilidade de longo prazo e pela evolução regulatória da CBF, que discute incentivos adicionais às SAFs em 2027. A próxima temporada, portanto, servirá de laboratório para medir se o “clube mais SAF sem ser SAF” seguirá ditando tendências ou precisará rever sua rota.
Com informações de ESPN