Quem: Martin O’Neill, ex-jogador bicampeão europeu pelo Nottingham Forest e treinador com passagem por clubes como Celtic, Aston Villa e seleção da Irlanda.
O quê: Em entrevista publicada nesta terça-feira (23/09/2025) pelo jornal The Guardian, o norte-irlandês classificou a métrica “expected goals” (xG) como “um desenvolvimento sem noção”, detalhou a demissão relâmpago que sofreu no Forest em 2019 e criticou a crescente influência de diretores de futebol.
Quando e onde: Conversa concedida em Londres; fatos relembrados ocorreram entre junho de 2019 e setembro de 2025.
Por quê: O’Neill lança o livro “The Changing Game: The Past, Present and Future of Football” e usa a obra para refletir sobre como a gestão moderna, baseada em analytics, está transformando o papel do treinador.
A demissão em 24 minutos que virou case de gestão
Contratado em janeiro de 2019 para um acordo de 17 meses, O’Neill acreditava ter o apoio do proprietário Evangelos Marinakis para montar, com calma, um Nottingham Forest capaz de brigar pelo acesso à Premier League na temporada seguinte. Mesmo após três vitórias seguidas no fim da Championship 2018/19, o treinador foi chamado a uma reunião que durou menos de um minuto. Vinte e quatro minutos depois, Sabri Lamouchi já estava anunciado como substituto — informação que o assistente Seamus McDonagh recebeu pelo celular antes mesmo de deixar o prédio.
Diretor esportivo no alvo: “vácuo de responsabilidade”
O’Neill relata que nunca havia trabalhado com diretor de futebol e estranhou a presença constante do executivo Kyriakos Dourekas e do CEO Ioannis Vrentzos no vestiário. Para ele, o cargo pode criar zonas cinzentas em que ninguém assume decisões cruciais. O testemunho ecoa o recente desligamento de Nuno Espírito Santo, também demitido por Marinakis, após 21 meses no comando do Forest.
Dados, xG e o resgate do “hustling” de Brian Clough
Ao abordar a onipresença dos analytics, o ex-treinador foi categórico: “O futebol é sobre vencer partidas marcando gols, não sobre registrar a expectativa deles”. O’Neill lembra que, sob Brian Clough, o conceito de pressão alta já existia — mas era chamado simplesmente de “hustling”. Para ele, métricas como xG sofisticam uma ideia antiga sem necessariamente oferecer melhor compreensão.
Raio-X da discussão
Demissão recorde: 24 minutos entre a saída de O’Neill e o anúncio de Lamouchi.
Duração no cargo: 19 partidas (Forest) x 21 meses (Nuno Espírito Santo).
Títulos como jogador: Campeonato Inglês (1977/78) e duas Copas dos Campeões (1979, 1980).
Carreira de treinador: 12 clubes/seleções, incluindo Celtic (tricampeão escocês) e Irlanda (Euro-2016).
Impacto para o mercado de técnicos britânicos
O’Neill, hoje presidente da League Managers Association, destaca que a Premier League atrai capital, proprietários e treinadores estrangeiros, enquanto nomes locais recebem chances curtas em divisões inferiores. O caso de Keith Andrews — ex-crítico do trabalho de O’Neill na seleção irlandesa e agora técnico do Brentford após atuar como coach de bolas paradas — ilustra o desafio: herdar elencos moldados por analistas de dados e manter competitividade sem perder identidade.
Imagem: Internet
Próximos capítulos
O livro de O’Neill promete acender o debate sobre o equilíbrio entre feeling de campo e ciência de dados. A discussão deve ganhar força conforme a temporada avança, principalmente se projetos guiados por analytics, como os de Brighton e Brentford, mantiverem desempenho acima do investimento. Para técnicos britânicos que buscam espaço, entender — e questionar — métricas como xG pode ser a chave para negociar cargos em um mercado cada vez mais globalizado.
Com informações de The Guardian