Cardiff (País de Gales) — Gianni Infantino, presidente da Fifa, defendeu neste fim de semana que jogadores que tapem a boca ao falar com adversários durante confrontos em campo sejam expulsos imediatamente. A declaração foi feita à Sky News durante a Assembleia Geral Anual da International Football Association Board (IFAB), órgão que determina as regras do futebol.
Entenda a proposta de Infantino
Para o dirigente, o gesto de cobrir a boca cria uma “presunção de culpa”: se o discurso fosse aceitável, não haveria motivo para escondê-lo. A ideia é transformar essa presunção em norma disciplinar, atribuindo cartão vermelho direto sempre que o árbitro identificar o comportamento durante um confronto.
Infantino ressalta que o foco é inibir ofensas discriminatórias — especialmente raciais — que muitas vezes passam despercebidas pelas câmeras e pela leitura labial. “Se você não tem algo a esconder, não esconde a boca”, resumiu.
O gatilho para o debate: caso Prestianni x Vinícius Jr.
O tema ganhou força após o atacante do Benfica Gianluca Prestianni erguer a camisa sobre o rosto ao falar com Vinícius Jr. (Real Madrid) na fase oitavas da Champions League, em 13 de março. O argentino recebeu suspensão provisória de um jogo por suposto insulto racista — acusação que ele nega — enquanto a Uefa conduz investigação completa.
O episódio evidenciou a dificuldade de coletar provas quando a fala fica encoberta, acelerando a discussão dentro da IFAB sobre mecanismos de dissuasão.
Como é a regra hoje e o que pode mudar
Atualmente, a Regra 12 (Faltas e Conduta Antidesportiva) já prevê expulsão por linguagem ou gestos ofensivos, mas requer que o árbitro ou o VAR detectem a infração. A proposta de Infantino criaria um critério objetivo: o simples ato de cobrir a boca, em contexto de confronto, geraria cartão vermelho, independentemente de prova verbal imediata.
Segundo Mattias Grafström, secretário-geral da Fifa, o texto pode ser votado em 30 de abril, no Congresso da entidade em Vancouver. Caso aprovado, o ajuste entraria no Livro de Regras 2024/25 e poderia vigorar já na Copa do Mundo deste verão (competição organizada pela Fifa entre junho e julho).
Raio-X: números da discriminação no futebol
- 136 casos de discriminação foram reportados pela Fare Network em competições europeias na temporada 2022/23.
- A Uefa abriu 28 processos disciplinares por racismo somente na última edição da Champions e da Europa League.
- Na Espanha, LaLiga registrou 24 episódios formais de insultos racistas em 2023, seis deles envolvendo Vinícius Jr.
- Desde 2020, a Fifa mantém o Protocolo de Três Etapas (paralisação, interrupção e, em último caso, encerramento do jogo) para incidentes discriminatórios, mas raramente o passo final é aplicado.
Impacto potencial em clubes, atletas e arbitragem
• Atletas: saber que cobrir a boca pode significar expulsão altera o código de conduta nos momentos de tensão. Mesmo protestos “inocentes” podem se transformar em prejuízo esportivo imediato.
Imagem: Internet
• Clubes: perder um jogador por gesto interpretado como tentativa de esconder ofensa pode custar pontos cruciais em fases de mata-mata ou de liga. A necessidade de orientação preventiva aumentará.
• Arbitragem: o critério automático simplifica a decisão do juiz, mas abre debate jurídico: em que momento a conversa amistosa se diferencia de uma confrontação? A IFAB estuda linguagem que proteja o “contexto” para evitar expulsões equivocadas.
Próximos passos — O texto final será redigido nas próximas semanas em consulta com confederações e sindicatos de atletas. Se aprovado em Vancouver, o novo protocolo virará teste-piloto em torneios Fifa de base antes de ser incorporado às principais ligas.
No curto prazo, a proposta sinaliza endurecimento sem precedentes contra ofensas raciais e pode redefinir a dinâmica de protestos em campo. A reunião de 30 de abril tende a ser decisiva: com apoio da maioria das confederações, a regra pode estrear já na próxima Copa do Mundo, funcionando como laboratório para eventuais ajustes na temporada 2024/25.
Com informações de BBC Sport