Quem: o atacante Federico Mangiameli, formado nas bases de Milan, Bologna e Torino. O quê: acusou nas redes sociais um “sistema tóxico” no futebol italiano. Quando: em 1.º de abril de 2026, horas depois da derrota para a Bósnia na repescagem europeia. Onde: em seu perfil pessoal no Instagram. Por quê: o jogador relaciona o fracasso da Azzurra na corrida para a Copa do Mundo de 2026 a práticas de favorecimento, corrupção e falta de meritocracia nas categorias de base e nos clubes profissionais.
Terceira Copa consecutiva sem a Azzurra: sintoma de algo maior
Com a queda para a Bósnia, a Itália repetiu 2018 (eliminada pela Suécia) e 2022 (pela Macedônia do Norte) e completou 12 anos fora da principal vitrine do futebol. O novo tropeço acontece mesmo após a conquista da Euro 2021, reforçando a percepção de que vitórias pontuais não corrigem a base do problema: processos formativos ineficientes, dependência cada vez maior de talentos estrangeiros nas equipes da Serie A e falta de minutos para jovens locais.
‘Vi colegas serem empurrados por 50 mil euros’: o que diz Mangiameli
No desabafo, o atacante de 21 anos menciona:
- Agentes que “compram” vagas para atletas em equipes da Serie C com envelopes de 50 mil euros;
- Elencos de base e profissionais repletos de estrangeiros, muitas vezes com salários acima da média;
- Técnicos que não têm autonomia para escalar porque as negociações extracampo determinam quem joga.
Embora venha de um atleta que não se consolidou na elite, o relato coincide com críticas de ex-dirigentes da Federação Italiana (FIGC) sobre a dificuldade de controlar conflitos de interesse entre empresários, scouts e dirigentes.
Raio-X: formação e utilização de jogadores italianos
Dados abertos compilados pelo CIES Football Observatory (temporada 2023/24):
- 35,5 % dos minutos na Serie A foram disputados por atletas formados no país;
- A Itália é a 4.ª entre as cinco grandes ligas que menos utilizam jogadores locais, atrás de França (59 %) e Espanha (45 %);
- Dos 98 convocados italianos sub-21 entre 2022 e 2024, apenas 27 somaram mais de 1.000 minutos na Serie A no período.
Esses números sugerem uma quebra na cadeia “base–profissional–seleção”, reforçando o ponto de Mangiameli sobre a dificuldade de jovens talentos italianos ganharem espaço competitivo.
Impacto imediato: reestruturação inevitável na FIGC
Sem Mundial desde 2014, a tetracampeã entra em ciclo de pressão por reformas que já vinham sendo discutidas:
Imagem: Gribaudi
- Limite de empréstimos e registros internacionais nas equipes sub-19 e sub-23 para garantir minutos a italianos;
- Licenciamento obrigatório de agentes que atuam em operações de base;
- Please fix the pipeline: criação de centros regionais de alto desempenho, ideia apresentada em 2025 mas ainda sem orçamento aprovado.
A derrota para a Bósnia acelera a agenda, já que as Eliminatórias para a Euro 2028 começam em março de 2027 e a seleção não pode se dar ao luxo de ficar fora de mais um grande torneio.
Próximos capítulos: do desabafo individual à política de longo prazo
O depoimento de Mangiameli ganhou tração porque vocaliza o que dirigentes, torcedores e ex-atletas percebem: a crise não é meramente técnica, mas estrutural. A FIGC deverá apresentar, nos próximos meses, um plano de ação para:
- Aumentar a taxa de utilização de jogadores sub-23 italianos na Serie A para ao menos 45 % até 2030;
- Regulamentar com mais rigor comissões, empréstimos e repasses envolvendo atletas menores de 18 anos;
- Articular com clubes um fair play competitivo que reduza a dependência de contratações estrangeiras de curto prazo.
Conclusão prospectiva: Se as reformas saírem do papel, o ciclo que levará a Itália ao Mundial de 2030 poderá representar um ponto de virada. Caso contrário, a denúncia de Mangiameli pode ser lembrada como mais um alerta ignorado em meio a uma crise que já dura mais de uma década.
Com informações de Trivela